Naquele dia, abaixei a cabeça para olhar as estrelas, entrei em contato com o meu universo e falei com meu Deus. O frio persistia em fazer tremer. Tremulavam as mãos, as pernas, nada estava no lugar. Gélida alma não podia me aquecer; nem mesmo a blusa, surrada, experiente em invernadas conseguiu me esquentar. Em meio ao nada, sendo tão insignificante, levantei minha cabeça e um anjo estava me observando.
Entrei no lotação e você abriu suas enormes asas, nossos olhares fixos voaram juntos com os nossos desejos. Na virada, à esquerda, desaparecemos; não sentia mais frio, o ônibus era apertado pro meu sonho. Desci, olhei aos céus, tentei te avistar. As andorinhas, os pardais, os bem-te-vis e os sabiás, cantavam como se soubessem da minha imensa vontade de te encontrar. Alucinado, olhei para o chão, folhas secas passavam pelos meus sapatos sobre a direção do vento, meu lamento, não vê -lo nunca mais. Até que uma mão em meu queixo, delicada mão, reergueu-me. Era você sem asas. Cochichou com seus lábios quentes em meu ouvido: "Perigo, ouça bem, abandonei as asas pra viver com alguém".
Flutuávamos...
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