sábado, 19 de outubro de 2013

Coisas de Igarapava

O sol ainda não aparecera, mas o rosto dela suava iluminado ao fogão de lenha. Flores verdes apareciam na mesa, vinham da horta, que as mãos envelhecidas de seu amado pontualmente traziam. O cheiro de café misturava com o de feijão cozinhando, eles disputavam o espaço entre si. Ao desjejum, dezoito pessoas esperando o momento certo de entrar em cena, como o sol, eles apareceriam.
Bule e copos, pães e bolos descansam prontos para saírem de cena. Beijos, muitos, no rosto e na testa, a anciã parece indiferente, coisas da idade. Olhos alegram-se de ver a prole comer; suas mãos unhas bem feitas e pintadas de vermelho, repartem o pão que amiúde vai à boca. Nada fala não lhe sai som, mas observa o cenário barulhento dos famintos de pães, de palavras e saciados de brincadeiras.
A velha enrubesce com as quentes mãos de seu amado em cima das suas; diz-se baixinho ao pé do ouvido um obrigado inteligível, que a senhora ri-se no íntimo, sabia que o agradecimento era pelo conjunto da obra. Levanta, incentiva a turma a enfrentar o dia; vai pouco a pouco ficando só, ela e as panelas, cozinha cantarolando uma canção antiga, raiz; grita para o Duque, o cachorro de estimação, continua cantarolando afinadamente e a sinfonia das panelas a acompanha junto com seus pensamentos.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Florescer aos Dezoito

Nanda, dezoito anos, olhos esverdeados; por família, simpática e de conversa muito agradável. Aquela menina mulher de corpo estonteante, escondia um desejo muito peculiar à espécie, queria ganhar flores. Quem poderia imaginar que ao primeiro ramalhete de flores, Nanda se desmancharia de puro prazer, satisfação e contentamento.

Qual ela gostava mais? Será de rosas, begônias, cravos, margaridas, violetas, do campo ou silvestres? A sua preferência era simples: FLORES. Quando ganhou seu primeiro buquê de rosas (cor-de-rosa) até chorou. Sua mãe com grande sensibilidade havia lhe mandado as rosas. Comprou as mais bonitas, rosas preparadas para uma mulher menina receber.

Ela por uma semana e meia sonhou, esmoreceu, parecia estar completa. As flores começaram a morrer, murchar, mesmo com todo o cuidado de suas delicadas mãos, prestativas, uma botânica nata. Os sonhos de Nanda e sua esperança de que alguém lhe mandasse flores, era regada com seus sentimentos mais íntimos e iluminada pelo sol.

A cada umedecida, seus olhos tinham vida, ao cair da menor pétala, balbuciava um elogio para que a flor conseguisse perdurar.

sábado, 7 de setembro de 2013

Absolvição

Na sala fria, escura, corredores silenciosos atrapalhados às vezes por sons de sapatos aos pisos. Aquela senhora, cabelos brancos desgrenhados, olhos úmidos, boca seca, assustada; sentada a meia luz, respira profundamente. Ao seu redor oito pessoas a observam. Uma seriedade nos rostos do mais velho ao caçula. A caluda quebrada pelo relógio, pode se ouvir algum barulho na rua. Repentinamente a voz trêmula e rouca passa a dissertar em defesa das cãs. Almejando piedade, há uma mina nos olhos, que desesperadamente jorram na tentativa de limpar o que parece sujo. As pestanas articulam-se, a boca tenta convencer o júri de sua inocência. A assistência atônita com tamanho despropósito falta de prudência, leviandade bate o martelo com a negativa da cabeça; a réu leva todos ao choro mostra-se pecadora como a humanidade. Absolvida, sorri, sua mão cai como seda ao chão, os advogados e as câmeras se apagam as oito almas a enterram canonizando-a.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Filhos do Tempo

Meus filhos se conheceram em Araçatuba-SP, há mais de dez anos atrás. Ele militar por carreira, na ativa, de família paulistana, educado no bairro de Santo Amaro, nas redondezas do clube Banespa. Ela, linda, formosa, estudiosa e feminina, de família paulista da cidade de Oswaldo Cruz.
Lembro-me que na faculdade o professor solicitou que formassem duplas para um trabalho, foi à oportunidade da aproximação de sentimentos; ela esforçava-se em não demonstrar, ele fazia questão de dar em cima. A nota pelo trabalho se tornou insignificante, pois a nota do amor já alcançou os dez.
Parabéns por uma década bem sucedida, e pelas incontáveis que virão. “Mesmo muitas águas não são capazes de extinguir o amor, nem podem os próprios rios levá-lo de enxurrada...” Cânt. Salomão 8:7.
Abraços
Marco Alexandre Dias da Silva

quinta-feira, 30 de maio de 2013

LÁ PRAS BANDAS DO SERTÃO

LÁ PRAS BANDAS DO SERTÃO


Lá pras bandas do Ceará, cidades pobres nos arrabaldes de Fortaleza, capital; existiam duas famílias bem paradoxais. Uma, religiosa, pertencente a Antonio Raimundo, homem de fé e generosidade; a outra de Raimundo Antonio, cabra valente, justiceiro, bem feitor aos seus próprios olhos, fazia sua justiça e ordem prevalecer.
Num determinado dia como de costume, Antonio Raimundo estava ajudando as pessoas e sobre a luz da lua falava da Bíblia para os ouvidos atentos, quando de repente, Raimundo Antonio chega com seus comparsas. Agride os presentes, mas Antonio Raimundo vira objeto de ódio.
O homem semimorto ao chão, desperta depois de horas e dá graças a Deus; esforça-se em proteger sua velha companheira, mas suas muitas dores o limitam do carinho e proteção. Muitos anos passaram, uns vinte, quando todas as escleroses se fecharam, Raimundo Antonio manda seus homens trazerem Antonio Raimundo ao seu lar. O sertanejo de crença vai orando e ao chegar à fazenda, o rude cangaceiro o manda curar sua adoentada esposa. Sabendo que era impossível para um humano, pós se de joelhos e começou a orar. Com a facilidade de quem está habituado a falar com Deus pede, a senhora levanta restabelecida, a admiração está no ar.
Raimundo Antonio o presenteia então com uma casa, um carro, com muitos agradecimentos, e com o principal, fé no Deus verdadeiro.



quarta-feira, 24 de abril de 2013

Dona Fausta


DONA FAUSTA


Senhora de fala mole, negra, simpática; contava que fora linda, Araguari – MG e seus homens paravam para ver a pérola negra desfilar. Levanta-se, coloca água pra ferver de seu jeito, calmamente. Eu tinha um corpo bonito, mas não era assanhada como as meninas de hoje, naquele tempo tinha-se respeito, diz a anciã. Em sua vagarosidade peculiar da idade, rejeita ajuda, pega o bule, vai atrás do suporte para o coador, depois o procura nas gavetas, chegou a hora de por o pó, três colheres generosas saciam sua vontade. Continua falando que está muito esquecida, balança a cabeça rejeitando tal limitação; o semblante muda para radiante quando fala de seu marido falecido, usa um chavão pra citar o homem: Uai, ô home bão!
Conta muitos momentos felizes, singulares de sua vida, entre eles o dia de seu casamento seguido por uma bonita festa. Ri-se da queda de cavalo que levaram; não se esquece de mencionar seu filho, como um presente de Deus com todo o amor, mesmo ele não falando mais com ela. Pede para reparar nas paredes, no chão, forro, diz que seus irmãos de religião fizeram todos os consertos. A xícara de café chega até minhas mãos, às delas tremulando faz a xícara dançar coreografando com o líquido. Explica-me baixinho o seu último investimento, precisa fazer uma viagem e está engordando dois porcos, o dinheiro já é certo. Dona Fausta permanece conversando e fritando os biscoitos de polvilho; eu e o dia demoramos a ir embora, pois nos apegamos àquela agradável senhora.

domingo, 14 de abril de 2013

Num Fechar de Olhos

Ao acordar, o desejo de não mais existir persiste. Fecho os olhos, pronto, não estou mais aqui. Pode parecer infantilidade, mas por simplesmente fechar os olhos não vejo os defeitos e me aproximo do mundo perfeito das crianças.

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"ESPERAREI"

Esperarei domingo; Esperarei sorrindo; Esperarei sonhando; Esperarei dormindo; Esperarei um amigo, Um abrigo, um lindo dia de sol.  ...